Curto-circuito pode queimar aparelhos, mas boa parte dos danos a eletrônicos vem de surto de tensão ou oscilação da rede, e cada evento é barrado por uma proteção diferente: o disjuntor cuida do curto, o DPS do surto e o filtro de linha de pequenas variações. Saber qual evento aconteceu muda o que fazer e o direito a ressarcimento.

Quatro eventos que parecem o mesmo problema

Curto-circuito. Ocorre quando fase encosta em neutro ou em terra sem carga no meio. A corrente sobe muito e o disjuntor desliga o circuito. Dentro de um aparelho, um componente em curto pode queimar a fonte e o resto da placa.

Surto de tensão. Pico brevíssimo de tensão acima do normal. Vem de descarga atmosférica na rede, manobra de chaveamento da distribuidora ou grandes cargas desligando. O surto atravessa o disjuntor, que não reage a ele, e atinge fontes de alimentação.

Descarga atmosférica (raio). É o surto mais forte. Mesmo um raio que cai a certa distância induz tensão nos cabos de energia, telefone, antena e internet.

Oscilação ou queda de tensão. Variações mais lentas, em que a tensão sobe ou cai por alguns segundos. Motores de geladeira e ar-condicionado sofrem com tensão baixa, e fontes com tensão alta.

Tabela: evento e proteção certa

Evento O que acontece Proteção que atua O que não protege
Curto-circuito no circuito Corrente muito alta, fio esquenta Disjuntor (parte magnética) DPS e filtro de linha não fazem esse papel
Sobrecarga Corrente acima do limite por tempo Disjuntor (parte térmica) DPS não atua
Surto da rede ou de raio Pico de tensão de microssegundos DPS no quadro, complementado por DPS de tomada ou filtro de qualidade Disjuntor comum não reage
Oscilação de tensão Tensão alta ou baixa por segundos Estabilizador ou proteção específica do aparelho DPS e disjuntor não corrigem
Fuga para a terra Choque, corrente escapando DR Disjuntor sozinho não percebe fugas pequenas

Repare que nenhum dispositivo faz tudo. O filtro de linha barato, em especial, costuma ter proteção limitada contra surtos fortes. O DPS no quadro desvia o grosso da energia e o filtro ou DPS de tomada age como segunda barreira para aparelhos sensíveis.

O que fazer logo depois do evento

  1. Se houve raio, tempestade ou falta de energia seguida de retorno com estalo, desligue aparelhos que não estejam funcionando normalmente e não force o liga e desliga.
  2. Não abra aparelhos nem tente "ver o que queimou": é serviço de assistência técnica.
  3. Anote data, hora aproximada, o que aconteceu e quais aparelhos foram afetados.
  4. Fotografe aparelhos, etiquetas e o quadro de disjuntores.
  5. Guarde as notas fiscais ou comprovantes de compra, se tiver.
  6. Se o disjuntor caiu, rearme uma vez. Se ele cair de novo, deixe desligado e chame o eletricista.

Como pedir ressarcimento na distribuidora

Quando o dano vem de falha no fornecimento (surto da rede, queda de cabo, oscilação causada pela concessionária), a distribuidora pode ser responsável. O caminho geral é:

  • Faça o pedido à distribuidora o quanto antes, pelo atendimento da empresa, e peça o número de protocolo. O prazo para reclamar é definido nas regras da ANEEL.
  • Informe cada aparelho afetado, com modelo e idade aproximada.
  • Mantenha os aparelhos sem conserto até a vistoria ou até a distribuidora orientar o procedimento. Em muitos casos ela solicita um laudo de assistência técnica.
  • A distribuidora analisa se há relação entre o dano e o evento. Se negar, você pode contestar e procurar a ouvidoria e a agência reguladora (ANEEL), além dos órgãos de defesa do consumidor.
  • Em caso de aparelho irrecuperável, o ressarcimento pode ser em dinheiro, conserto ou troca, de acordo com a regra vigente.

As regras e prazos são fixados pela ANEEL e podem mudar. Consulte as normas atuais antes de abrir o pedido.

Um dano causado por problema interno da casa, como curto na própria fiação, geralmente não é responsabilidade da distribuidora. Por isso vale ter um relato claro de que o evento foi na rede, como vizinhos também afetados e queda geral de energia.

Como se proteger de verdade

  • DPS no quadro de distribuição, instalado por eletricista, com aterramento verificado. É a proteção que cobre a casa toda.
  • IDR/DR nos circuitos de áreas molhadas e tomadas, contra choque.
  • Filtro de linha com proteção para computador, TV e roteador, como complemento.
  • Disjuntores do tamanho certo para cada circuito, nunca maiores que o fio.
  • Desligar da tomada equipamentos caros durante tempestades fortes, quando prático.
  • Aterramento em ordem, pois sem terra o DPS não tem para onde desviar o surto e a carcaça dos aparelhos fica sem caminho de proteção.

O DPS tem um indicador de estado. Depois de um surto forte, o indicador pode mostrar que o dispositivo se esgotou e precisa ser substituído.

Como saber qual aparelho foi afetado por surto

Aparelhos atingidos por surto costumam apresentar um padrão: fonte de alimentação queimada, placa com marcas escuras, cheiro de componente queimado, aparelho que não liga mais ou que liga e desliga. Já aparelhos com problema de curto interno costumam ter queimado o fusível ou derrubado o disjuntor logo na primeira tentativa.

Os mais sensíveis são os que têm eletrônica de fonte chaveada: televisores, roteadores, computadores, carregadores, forno micro-ondas digital, geladeiras com placa eletrônica e aparelhos de ar-condicionado inverter. Os mais robustos são os de resistência simples, como chuveiro e ferro de passar, embora também possam falhar.

Um detalhe útil para o pedido de ressarcimento: aparelhos ligados na tomada no momento do evento são os candidatos naturais. Aparelhos desligados da tomada, em geral, escapam. Se vários aparelhos de uma mesma rua ou prédio queimaram ao mesmo tempo, o relato fica mais forte, e vale conversar com vizinhos para registrar pedidos parecidos.

O que o disjuntor faz e não faz

Muita gente acha que ter disjuntor significa ter a casa protegida. Ele cuida do fio e do circuito contra sobrecarga e curto. Um surto dura microssegundos, não é um excesso de corrente que o disjuntor reconheça e entra pela mesma fiação que está energizada. O disjuntor não "vê" o surto, que passa direto para a fonte do aparelho. Por isso o DPS é um componente à parte, e o disjuntor não substitui o DPS.

Quando chamar um eletricista

Chame quando o disjuntor cai repetidamente, quando aparelhos queimam mais de uma vez, quando há cheiro de queimado no quadro ou quando a casa não tem DPS nem aterramento confiável. Instalar o DPS no quadro é serviço de eletricista e protege todos os aparelhos ao mesmo tempo.

Na visita, pergunte se o quadro tem terra, qual classe de DPS é adequada à sua casa, se o disjuntor geral e os parciais combinam com a fiação e se vale instalar um IDR. Peça um registro do que foi feito, que também ajuda caso você precise comprovar o estado da instalação depois de um novo evento.